Ai de mim
Martha Medeiros
Mesmo quem não leu, já deve ter ouvido falar das famosas “Cartas portuguesas”, de Mariana Alcoforado. Para muitos estudiosos, realmente existiu uma religiosa portuguesa que entrou para o convento aos 12 anos de idade e tempos depois viveu uma tórrida paixão com um oficial francês, pelo qual foi abandonada. As cartas que ela lhe enviou ficaram célebres pela demonstração de um amor alucinado, de uma entrega sem limites, ainda que haja quem aposte em golpe de marketing do editor: ele teria sonegado o nome do verdadeiro autor e atribuído as cartas a uma freira só para dar mais popularidade à obra. Sim, estratégias de marketing não foram inventadas pelo Duda Mendonça, estamos falando de um livro publicado em 1669.
São apenas cinco cartas, e no entanto Mariana Alcoforado utiliza 15 vezes a expressão “ai de mim”. Ai de mim, não posso suportar sua indiferença. Ai de mim, me encontro a sofrer sozinha tal desgraça. Ai de mim, por que usas de tamanho rigor para um coração que é teu?
Com todo respeito: não parece portuguesa e sim mexicana. Não temos a versão do rapaz, mas percebe-se que não foi pequeno o estrago que causou. Coisas de antigamente? É bem verdade que estamos falando de algo acontecido 336 anos atrás, porém, surpresa: é só abrir uma revista feminina ou entabular uma conversa com uma mulher moderna para descobrir que o ai de mim segue firme nas paradas de sucesso, apenas com variações tipo “não aguento mais tanta responsabilidade” ou “são muitos papéis para uma mulher só”. Ai de nós.
Não vou tirar meu corpinho fora, eu também tenho minhas queixas, não anda fácil ser mulher depois que resolvemos exigir o que nos era de direito, ou seja, tudo. Mas o preço é este: estresse, fadiga e saudades do bem-bom.
Agora Inês é morta, temos que segurar a onda e não exagerar na chiadeira. Uma reclamadinha rápida, tudo bem, mas, depois, todas de volta ao trabalho, à academia, ao supermercado, às tarefas cotidianas. Agenda cheia? Comemore. Chega de ais.
Eu sei que os 15 ais da Mariana Alcoforado não tinham a ver com essas trivialidades: ela lamentava um amor arrancado a fórceps de dentro dela. Seu homem se fora. Doía no século 17, dói no terceiro milênio, certas coisas não mudam. Mas convém não banalizar o lamento: andamos distribuindo ais feito santinho de candidato. Ais por não encontrar o homem ideal, ais porque estamos gordas, ais porque o casamento anda asfixiante, ais porque não temos tempo, ais porque ninguém nos compreende. Vítimas do quê? Das nossas próprias exigências.
Mulheres com tragédia nas costas, mulheres que perderam filhos, mulheres sem expectativa de dignidade, essas fazem nossos ais parecerem o que são: manha. Que a gente se entristeça, tudo bem, mas sem superdimensionar a dor.
O cara te deixou? Terrível. Mas não radicalize: se você pegar um táxi e mandar o motorista seguir para o convento, periga ele perguntar se é nome de algum restaurante. Fique onde está. Cure-se aí mesmo, sem dramatizar e sem desperdiçar seus ais. Nunca se sabe quando realmente precisaremos deles.
Domingo, 29 de maio de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.